Ela acordou e a cama
estava vazia ao seu lado.
Já era tarde,
felizmente era fim-de-semana, e começou a lembrar-se do que se tinha passado na
noite anterior e porque tinha dormido tão mal, porque se sentia tão vazia, tão
desamparada de repente.
No entanto, ao mesmo
tempo, a sua cabeça, que começava a trabalhar com alguma velocidade, também lhe
dizia que na realidade tinha sido inevitável chegar a este ponto.
Sabia bem que os sinais
já se apresentavam há muito, muito tempo e que ela tinha optado por ignorá-los.
Mas, se o tinha assim
decidido devia-se ao facto de estar farta, farta, farta, de tentar compor a
relação, de tentar o diálogo, insistir até à exaustão e não conseguir nada, uma
mera conversa…
Anos antes, quando a
relação tinha começado, era maravilhoso: o entendimento entre ambos em todos os
aspectos, a sintonia, as conversas intermináveis, o prazer de estarem apenas em
silêncio, o lerem um para o outro, os fins-de-semana fora de Lisboa com que ele
a surpreendia, as outras atitudes que ele tinha para a surpreender e maravilhar
e que ela adorava, e correspondia dedicando-se de corpo e alma a ele.
Depois vieram os filhos….Muito
desejados mas que sempre provocam um turbilhão na vida de um casal, embora
sejam uma bênção e seja sempre um milagre (uso esta palavra não no sentido
estrito mas lato) o nascimento de um bebé perfeito, sem problemas de maior, os típicos
de qualquer recém-nascido e depois com alguns meses.
E veio também a ascensão
profissional dela… com a qual ele não conseguiu lidar totalmente bem.
Esta situação a
acrescer ao facto dos filhos também lhe roubarem a ela precioso tempo que antes
era todo para ele….
Mas ela fazia tudo e
carregava o mundo às costas se fosse preciso… com ele ou sem ele… mas tentou
milhares de vezes o diálogo para que a relação se compusesse e sem sucesso.
E assim na véspera,
porque ele não tinha aceite uma separação e queria logo o divórcio, ela ficara
sozinha em casa, definitivamente, com os seus filhos.
Nada havia a fazer… o
tempo trataria de ir arranjado as coisas da melhor forma, e ela teria de ser
forte, uma mulher de armas e tratar de tudo sozinho, o que alias já vinha
fazendo há um ano ou dois.
Pelo menos não tinha “um
peso morto” ao seu lado, irritando-a com a sua inércia e pouco apoio familiar.
Depois deste monólogo
consigo própria, espreguiçou-se muito, esticou-se ainda mais, levantou-se para
ir esborrachar as suas crias com beijos, elas que já estavam a ver TV, desenhos
animados e coisas afim, e para lhes ir preparar o pequeno-almoço.
E assim começava uma
nova fase da sua vida.
Parecia um gato, que
dizem ter várias vidas, mas que cai sempre de pé.
Assim era ela, mulher
de armas e acabava sempre por cair de pé!

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